Marlon Fortes
Tinha eu mais ou menos os meus oito anos de idade. Por esta altura. Época de natal. Eu e a minha mãe, estávamos na sala de jantar a ver as noites de Natal na TV, um concerto de música clássica, a minha mãe perguntou-me “o que
é que gostavas de ser quando fores grande”, lembro-me de ter dito, “aquilo”, aquilo agora da para perceber este longo caminho percorrido até aqui.
Nascido numa pequena e calorosa ilha, S. Vicente, Cidade do Mindelo, deixei-a muito cedo aos três anos para caminhar na Morabeza de um povo que esta entre o céu e o horizonte, Portugal é o destino por certo.
Minha mãe, Maria Joana Fortes, mandou me buscar, pensando que ia viver com ela para sempre, foi quando conheci a minha ama, Dona Adelina, esta mulher foi durante muito tempo a minha segunda mãe, na ausência da primeira.
Foram tempos difíceis, mas bons ao mesmo tempo, quando não fazia chichi na cama. Neste período já estava na escola primária, da Junta freguesia de S. Nicolau, cidade do Porto.
Porto da minha infância, assim esta na minha memória, a ribeira, os meus amigos, as brincadeiras, dos saltos da ponte D. Luís…
Isto foi-se tornado um pretexto para uma nova proposta, nesta altura tinha os meus doze anos, quando a minha mãe me pergunta se queria ir fazer umas férias a Cabo Verde.
“Claro, claro que quero”. A imagem que tinha da ilha era como se fosse um sonho impossível e adormecido, de que nunca teria feito parte de mim, um paraíso, com longas praias de canas e de bananeiras.
Acordei num novo passado, um daqueles sonhos em que acordamos e dizemos, eu não quero sair daqui, assim foi.
Fiquei em Cabo Verde. Voltei a reavivar as minhas memórias de ilhéu ta, à rotina lenta e imperecível. Foi-me dado a minha tia-avó para tomar conta de mim, conclui a primária, aos dezoito anos fui para a escola técnica industrial do Mindelo, para o curso de electricidade, fracasso total, sei que nos exames práticos, dei seis curto-circuitos consecutivos.
Numa das minhas tardes de volta a casa, passo por um amigo que me diz que ta a haver uma peça de teatro no Centro cultural português, nunca tinha assistido a tal evento, fui lá dar uma vista de olhos, quando sem me aperceber, algo me despertou, uma certa curiosidade, um mundo familiar, se apoderou de mim. Comecei a frequentar o espaço, até me inscrever num curso de um ano de iniciação ao teatro. No fim do curso os alunos teriam que apresentar uma peça, fiz o meu primeiro monólogo, com recolhas de textos de autores portugueses, e uma marioneta, havia, e penso que até agora se mantém esta tradição, para motivar os futuros actores, a entregas de globos de Ouro, rebatei dois deles, melhor texto e melhor actor.
Esta atitude, motivou-me, entrei para o grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, durante um ano fomos em digressão, como o Festival Fite. Não foi preciso muito tempo para sentir que “aquilo” era isto.
Já que ainda tinha uma ida de avião, sim porque se vim passar férias, umas férias de oito anos, estava na altura de voltar. Afinal fora um jogo de estratégia,
a minha mão sabia que eu iria ficar, por isso, eu fora apenas com uma viagem de ida, e não de ida e volta como pensara. Lá convencia-a a voltar a buscar-me pela segunda vez.
Em Portugal, inscrevi-me no Balleteatro do Porto. Pois é, Porto. Segundo porto da minha adolescência. Tinha os meus vinte anos nessa fase; esta formação veio de certa forma delinear a estética do meu percurso de trabalho como profissional, a do teatro e dança, completamente diferente da que tinha adquirido em cabo verde.
Mesmo assim a vontade de saber e descobrir o que era e é “aquilo” foi cada vez mais forte, aproveitando todas as oportunidades, tendo feito a minha estreia como actor profissional com a companhia Art´Imagen, na peça (Frangipani) de Mia Couto com encenação de Eduardo Magacela.
As coisas pareciam dar os seus frutos, e a escola ficando para trás. Parecia ter entrado no mercado, olhei sempre para frente, nunca foi do mim, ficar suspenso no passado, sendo que fui e deixei-me ir, participei no trabalho criativo de varias companhia do Porto, passando muito rapidamente pelo Teatro Nacional S. João à Fabrica de Movimentos. Durante este tempo soube que também isto faria parte da minha escola de “vida”. Desenvolvi o meu trabalho de corpo como actor e bailarino, percorri o processo “daquilo”.
Já sabendo o que me iria espera depois da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura decidi ir para Lisboa, onde fui trabalhando como actor e bailarino.
A necessidade de cruzar novos conhecimentos, estava em hora de ponta, depois do trabalho com encenador o Jon Mowat, na companhia de dança Paulo Ribeiro, com a peça (Auto da barca do inferno) voltei ao clown. Não poderia deixar esta relação ficar por aqui, tenderia que ir mais além, e fui então para Barcelona à busca do clown; recebi aulas na escola de Circo Roger Ribel. Sentia-me insaciado, incompleto, inacabado… Voltei a Lisboa.
Não encontrei trabalho, fiquei assim durante algum tempo, a fazer de tudo um pouco para ganhar dinheiro, até surgir um convite para trabalhar com a companhia Acto Instituto de Artes Dramática de Estarreja, deveria ter cumprido o contrato de um ano, acabei por sair aos oito meses de trabalho, mesmo assim optei por ficar em Aveiro, a cidade prendera-me, talvez por me fazer lembrar o ritmo de vida de Cabo Verde. Durante a minha estadia em Aveiro tomei a grande decisão de dar inicio a construção da minha companhia, trabalhando em casa e dedicando-me a criar a minha auto independência com as novas tecnologias, neste período, tinha como objectivo aprender a trabalhar e a dominar algumas ferramentas de edição de vídeo e som. Na residência artística Te Dance, no Teatro Aveirense, titulado dança e novas tecnologias, despertou-me o interesse por aplicar e trabalhar, softwares no trabalho do actor, ou performer.
A necessidade de pesquisar e desenvolver um trabalho profundo era uma constante numa inconstante, financeiramente estava impossível de dar continuidade ao projecto criação da companhia, se queria mesmo ir a vante, seu sabia que tinha que estava na altura de tomar uma outra grande decisão, investimento de uma vida, desviar todo o meu trabalho e conceitos aprendidos até aqui, voltar a base. Sentia uma falta carência de métodos de trabalho, estes sete anos sem estudo, tinha-me sito bastante positivos e aprendera de facto, no trabalho do actor a executar, a não “pensar”, e sentir “aquilo”. Só que isso que tento saber, é a minha vida, como individuo e como artista, para isso como a minha vida sempre esteve em mudanças de noventa a cento e oitenta graus, estava na hora de o fazer artisticamente, seguir em paralelo uma pesquisa pessoal e teórica do actor investigador.
Inscrevi-me na Faculdade da Escola Superior Tecnologias e Arte de Lisboa, no curso de Artes Performativas. Apesar das dificuldades financeiras estou a caminhar, onde vou não sei, mas sei dizer onde quero ir, e se somos nós artistas que fazemos o rumo das artes, a próxima paragem é a pós-graduação
Marlon Fortes Costa.